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O tropeirismo vive, mas na boleia do caminhão
25/07/2015 Na Estrada Carol Corso e Matheus Huff Bruna Bueno

Diferente dos grandes motores e tamanhos de hoje, a força animal e a coragem dos tropeiros realizavam o transportes de produtos pela região de Vacaria

A boleia era o lombo de uma mula, que com a força das suas quatro patas realizavam a função do motor. Para guiar a tropa, a coragem de homens que desbravavam por longos dias, estradas de chão estreitas a beira de precipícios. Assim, os tropeiros, que levavam e traziam mercadorias, foram os precursores dos caminhoneiros, desenvolvendo novos caminhos e cidades.

Aos 98 anos, Antonio Ferreira de Lima sabe contar muitas histórias desta época de peregrinação para levar e buscar mercadorias. Vô Lima, assim chamado pela família, começou a viajar com seu pai aos 12 anos de idade. Desde então, o tropeirismo foi seu ofício e alegria por, pelo menos, cinco décadas.

“O viajante saia de casa pra ir a Praia grande, por exemplo. De lá trazíamos farinha de mandioca, polvilho, arroz e cachaça. Esta, a gente colocava dentro de uns barris chamados de corote. Também tinham os 'borrachões' feitos da aspa do gado. Tenho até uma fotografia com um destes. Era do meu falecido pai. Levava até oito litros da bebida”.

- Escuta, Alvina, traz a fotografia do borrachão;
A filha de Antonio, Alvina, busca a fotografia que, em seguida, é mostrada a equipe da C20.
- Este aí sou eu com o borrachão;
- Esta era do tempo que ele tomava, diverte-se Alvina.

As viagens aconteciam rumo a diversos destinos da Serra Gaúcha, Campos de Cima da Serra até uma parte de Santa Catarina, especificamente, a cidade de Praia Grande, uma das distâncias mais longas já feitas pela tropa de Antonio.

“A chegada era a coisa mais especial do mundo. Sempre se recebia a ajuda de outros tropeiros que já estavam abrigados. Por mais que nunca tivessem se encontrado antes. Era uma irmandade”

Na época, Lima vivia no “Governador”, um distrito da cidade de Bom Jesus. Nos dias de jornada, o grupo saia cedo para a cavalgada. Depois, por volta das três horas da tarde, se encaminhavam para um refúgio. Assim como hoje o caminhoneiro dispõe dos postos de gasolina, as tropas também tinham paradas certas para descansar durante a noite, como os galpões de tropeiros. Quando chegavam, era a hora de colocar as mulas nos potreiros, fazer um carreteiro e serenar.

“A chegada era a coisa mais especial do mundo. Sempre se recebia a ajuda de outros tropeiros que já estavam abrigados. Uns ajudavam os outros. Por mais que nunca tivessem se encontrado antes, ficavam amigos e começavam a conversar. Era uma irmandade,” recorda. Talvez o companheirismo e o espírito de união entre caminhoneiros tenham se originado nestas lidas do passado.

No outro dia, Era feita uma alimentação forte, carregavam as tropas novamente, colocavam o borrachão na cabeça dos arreios e seguiam caminho.

A ALIMENTAÇÃO DOS TROPEIROS

Era preciso uma alimentação forte para aguentar dias a finco de trajeto. Por isto, cada refeição era reforçada. De manhã cedo, antes de partir, era preparado um café com um “revirado de feijão” e paçoca. A mãe de Antonio também costumava a arrumar um saquinho com roscas, já que o pão estragaria muito rápido dentro dos cargueiros.

Ao meio dia era feito um café nas “chicolateiras”, uma espécie de bule, que se punha perto do fogo de chão. Quando a água fervia, era colocado o pó de café dentro e em seguida um tição em brasa, que fazia o pó assentar no fundo da vasilha. “Dava um café coisa mais especial,” segundo Vô Lima. A noite preparava-se um carreteiro e uma panelada de feijão com toicinho de porco.




DAS MULAS COM SURRÕES AS GRANDES CARRETAS DE MADEIRA

Praia Grande, Três Forquilhas, Caxias do Sul, Antônio Prado e Vacaria eram rumos costumeiros de Antonio. O antigo tropeiro lembra que, no começo, os deslocamentos eram feitos apenas com mulas levando “surrões”, espécie de alforges da época posicionados em cima do lombo dos animais, cada um carregando até 90 quilos de mercadorias.

“A tropa do meu pai tinha cinco cargueiros, como a gente dizia. 'Carreta com surrão'. Acho que você entende isto aí, né?” - Alvira, me veja aquele burrinho ali carregado para eles verem - pede Antônio à filha.

Como ninguém havia entendido tal forma dos cargueiros, Antônio deixa mais claro mostrando a equipe da revista um artesanato com a réplica da mula portando os surrões.

Dentre as mulas que realizavam o transporte das mercadorias, sempre havia uma que fazia o papel de madrinha usando um cincerro, um tipo de sineta que pendia no pescoço do bicho cujo som produzido guiava a tropa. De acordo com Vô Lima, a mula depois de acostumada com este instrumento, não deixava mais de amadrinhar. “O bicho é bruto, mas tem o entendimento deles, né? Era bater o cincerro e toda a 'mulada' vinha”. As estradas também dificultavam a vida destes viajantes. Nas excursões em direção a serra, por exemplo as vias eram apenas um “trilho”, muito estreitas, com precipícios, em que só um cargueiro atrás do outro conseguia passar.

“Quando aquelas pobres mulas levando os cargueiros chegavam em cima daqueles perais, 'encrespavam' o pelo. Era um suor subir uma serra daquelas, não dava para errar,” lembra Lima.

“Quando aquelas pobres mulas levando os cargueiros chegavam em cima daqueles perais, 'encrespavam' o pelo. Era um suor subir uma serra daquelas, não dava para errar,” lembra Lima.

Depois dos surrões, chegou a vez das carretas ganharem espaço para auxiliar no transporte. Elas eram nada mais nada menos do que carroças de carga. Depois de casar, Antonio acabou herdando um exemplar destes do falecido sogro. Logo, suas jornadas ficaram mais incrementadas.

Seu Lima conta que existiam carretas movidas por até oito mulas. “Eram uns carretões que meu deus do céu, do tamanho de uma casa. A minha não era tão grande. Tinha quatro animais na frente, outro par no cabeçalho da carreta e uma mula na encilha,” compara.

Para poder utilizar este tipo de condução na época, era necessário adquirir uma carteira de tropeiro, como se fosse a atual carteira de motorista. No documento de Antonio, havia sua foto, o nome completo e a escrita “tração animal”. Não havia taxas para a confecção da mesma. Conforme Vô Lima, a cédula era apenas um “sem vergonhismo” de político.

“As autoridades inventaram a carteira para carreteiro. Isso era coisa dos políticos. Vinha a minha fotografia e dizia 'tração animal'. Se eu não tivesse a carteira eu não podia ser carreteiro e seria multado. Quando saia 'carretear' tinha que estar com ela no bolso, como um motorista hoje, né?”

Grandes produtos passavam a ser transportados pelas carretas. Vô Lima levava couro de gado e madeiras para escambo e trazia de volta mantimentos para o sustento da família. “Havia armazéns certos para compras. Comprávamos a alimentação e já no outro dia voltávamos com a carreta carregada”.

No verão eram realizadas cinco viagens. Já durante o inverno, pelas dificuldades que o clima ocasionava, eram concretizadas apenas duas jornadas, uma a Praia Grande e a outra a Antônio Prado.

O trabalho era penoso. Quando a estrada não era apropriada, a possibilidade de atolar a carreta era maior. Quando isto acontecia, os tropeiros precisavam tirar toda a carga do veículo para remover carroça da lama e depois carregá-la novamente.

“EU GOSTAVA MESMO ERA DE SAIR VIAJAR”

“Eu gostava mesmo era de sair para viajar. E depois era o falecido pai quem escolhia os companheiros de tropa. Sempre era o nomeado. Eu sabia levar o 'veinho'. Fazia as coisas por direito pra ficar de bem com o patrão e melhor com o caldeirão, né?”

Para vô Lima, o tropeirismo era uma diversão. “Chegava cansado das viagens, mas aquilo para mim era uma brincadeira. O corpo não doía e se cansasse de estar a cavalo, simplesmente apeava e caminhava, puxando os animais e os cargueiros”. Antônio explica que em muitas locomoções, caminhava de cinco a seis quilômetros para “desencaranguar” as pernas. Depois, voltava para o lombo da mula e seguia o caminho.

“Eu gostava mesmo era de sair para viajar. E depois era o falecido pai quem escolhia os companheiros de tropa. Sempre era o nomeado. Eu sabia levar o 'veinho'. Fazia as coisas por direito pra ficar de bem com o patrão e melhor com o caldeirão, né?”

Vô Lima sente saudades dos mais de 50 anos dedicados às primeiras estradas da região e de tudo o que viveu no sítio. Quando não estava viajando, trabalhava na terra. “Ou eu e meus irmãos estávamos fazendo roça ou arrancando pedras do morro para taipa. Teve uma época que construímos mais de 300 metros de taipa. Eu era tropeiro, taipeiro, era pau para qualquer obra”.

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