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Na Estrada com Zulmiro Campagnaro

Poucas pessoas trabalham por prazer. Ter amor por sua profissão e dedicar parte de sua vida à mesma é coisa rara de se ver. Nascido no interior de Antônio Prado, queria ser padre para fugir do trabalho no campo e apesar de todas as barreiras lutou contra a vontade do pai para realizar o sonho de ir para a estrada

10/07/2013 Especiais André Ferreira Vinícius Todeschini

       Casado com dona Inês, pai de quatro filhos  e dono de uma memória incomparável,  seu Campagnaro - como gosta de ser chamado - recebeu a equipe do C20 para contar em detalhes um pouco de sua trajetória. Emoção, risos e aprendizado fizeram parte de toda a entrevista, que você confere agora.

- Onde o senhor nasceu? Nasci na linha Gomercinto, município de Antônio Prado. Tive uma infância complicada. Eu queria ser padre para fugir da roça; nunca gostei do trabalho no campo. Porém, meu pai não deixou, por eu ser o filho mais velho. Eu tinha que cuidar dos meus irmãos.


- O que é uma linha? Antigamente as áreas de colônia eram divididas por linhas (algumas existem até hoje). Em dia de missa, todas as linhas se reuniam na mesma capela. O povo saía a cavalo, de charrete, fazendo chuva ou sol; ninguém faltava à missa.


- E como surgiu a vontade de ir para a estrada? Meu vizinho tinha um caminhão. Em suas viagens ele trazia algumas lembranças para mim. Quando eu via o seu caminhão passando em frente à minha casa, eu tinha muita vontade de aprender a dirigir. Por volta de 12 anos de idade eu já sabia que meu destino era ser caminhoneiro.


- Então foi ele que levou o senhor para estrada? Não. Fui realizar esse sonho somente mais tarde. Eu vim servir o exército em Vacaria. Quando dei baixa voltei para o sítio de meu pai e ele me fez uma proposta: me dava um pedaço de terra para eu iniciar minha vida, porém eu tinha que casar. Já tinha escolhido até uma namorada para mim. Foi nesse momento que disse para meu pai: - eu não quero isso para mim, eu quero ser caminhoneiro.


- Seu pai não queria que o senhor fosse caminhoneiro? No início ele era contra; queria que eu seguisse a vida da colônia, mas a minha vontade era maior. Todos os domingos eu mentia para meu pai que ia na missa. Eu saía a cavalo, fazia 16 Km até Antônio Prado para procurar emprego na área de caminhão. Eu queria aprender a dirigir e ir para a estrada.


- O senhor encontrou o emprego? Sim. Um dia conheci seu Catarino Comparin; ele trabalhava com caminhão. Eu pedi para ele me ensinar a trabalhar e a dirigir e ele me disse: - Esse guri vai dar bom! - Apostou em mim e foi ali que comecei. Trabalhei um ano de graça; ganhava somente comida, mas nunca desisti.


- E quando seu pai ficou sabendo? Assim que aceitei o emprego meu pai foi se aconselhar com um amigo, que lhe disse: - se é isso que teu filho quer, deixa ele seguir em frente. Então, ele e seu Catarino compraram um caminhão em sociedade. Foi um dos dias mais felizes de minha vida; não via a hora de sair para a estrada.


- E como foi sua primeira viagem? Nunca me esqueço: no dia 8 de setembro de 1962 fiz minha primeira viagem sozinho. Levei um carregamento de cebola do Rio Grande do Sul para o Rio de Janeiro. Chegando na cidade de Rezende, a polícia me parou. A minha licença era válida somente no meu Estado. Mantive a calma e depois muito tempo de conversa eles me liberaram.


- Qual foi o conselho de seu pai para a viagem? Meu pai me pediu para nunca viajar à noite. Ele rezava por mim todos os dias e desde então sempre que eu estava na estrada e começava a anoitecer eu parava o caminhão e logo ia dormir. Nunca viajei à noite.


- Sua lembrança de datas é muito boa. O senhor lembra a data em que parou de dirigir? Foi após uma consulta médica. Depois de uma bateria de exames, o médico me disse que se eu quisesse viver eu deveria aposentar o caminhão. Então, no dia 24 de dezembro de 1998 fiz minha última viagem. Foi difícil tomar essa decisão; eu adorava a vida na estrada... foram trinta e nove anos da minha vida dedicados ao caminhão.

- Todo caminhoneiro traz na bagagem grandes amizades, amizades que rendem muitas histórias. Qual delas o senhor vai nos contar? Meu melhor amigo também trabalhava com caminhão. Era meu amigo de infância. Um dia, em uma conversa, ele revelou que tinha o sonho de sermos sócios no ramo de caminhão. Passado um tempo, após um incidente com ele, resolvemos concluir a sociedade. No mesmo dia ele almoçou em minha casa e durante o almoço disse que havia realizado um sonho: de ser sócio de seu melhor amigo. Após dois meses da conclusão de nossa sociedade ele faleceu. [Seu Campagnaro se emociona]. Foi um choque para mim.


- Antigamente os caminhoneiros não tinham tantos recursos como hoje, O senhor acha que teve uma vida difícil? Apesar de todas as dificuldades, não considero que a minha vida foi difícil, porque sempre fiz o que amo: ser caminhoneiro.


- Para encerrar, o que o senhor acha que o caminhão proporcionou para a sua vida? Com certeza o amor pela profissão. Nunca imaginei fazer outra coisa; me senti satisfeito e me dediquei durante todos os anos em que trabalhei. Isso não tem preço.

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