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A terra do Rodeio

No mês em que as preparações para o Rodeio Internacional de Vacaria estão a todo vapor, a C20 traz um apanhado de informações sobre a história dessa festa que recebe visitantes e apreciadores de todos os lugares e cresce a cada edição

01/01/2018 Especiais Carolina Padilha Alves Bruna Bueno

O ano de 2018 já começa com uma das maiores festas do nosso estado. Conhecido internacionalmente por celebrar a cultura e as tradições do povo gaúcho, o Rodeio de Vacaria teve seu início no ano de 1958 e foi bem diferente do que as novas gerações estão acostumadas a presenciar.

Getúlio Marcantonio, na época patrão do CTG Porteira do Rio Grande e ex-deputado estadual, foi o idealizador do primeiro rodeio que aconteceu no mês de abril. Contando com apenas um torneio de laço e um concurso de rédeas, o rodeio durou um dia e teve dimensão intermunicipal, contando com a participação dos municípios de Bom Jesus e Lagoa Vermelha.  Apesar da situação precária em que os próprios organizadores e competidores tiveram que preparar o pedaço de terra onde a disputa ocorreria, foi assim que as modalidades e suas regras foram sendo criadas.

No ano seguinte, 1959, o evento passou a ser estadual, já que visitantes e competidores das cidades de Soledade, Caxias do Sul e da capital vieram prestigiar. Desta vez, o rodeio durou dois dias e contou com a participação Wenceslau Ferreira Filho, ginete que representou o Brasil em um rodeio nos Estados Unidos.

Até o ano de 1960, a festa foi organizada anualmente. A partir daí, decidiram fazê-la de dois em dois anos, como funciona até hoje. O rodeio foi considerado internacional na quinta edição, quando pessoas dos países do sul do continente e alguns americanos começaram a disputar as provas.

Dez anos após o início dos rodeios, dois momentos importantes se destacam: a ampliação dos concursos nas modalidades artísticas, como a participação das invernadas nas competições de dança, estas baseadas em pesquisas de folcloristas de infinita importância como Paixão Côrtes, Antônio Augusto Fagundes e Luiz Carlos Barbosa Lessa. O segundo acontecimento foi o primeiro acampamento, feito em um pequeno espaço roçado no mato, onde se instalaram visitantes de outras cidades. Com o tempo, foram construídas churrasqueiras, banheiros e o encanamento com água tratada para melhorar as condições dos acampamentos.

Todas essas transformações que aconteceram ao longo dos anos, fez com que o nosso evento seja considerado a Copa do Mundo dos rodeios. Quem ganha um troféu aqui, é respeitado e temido pelos adversários em todos os lugares que houver competições tradicionalistas gaúchas.

A cidade se prepara para sediar, do dia 27 de janeiro a 4 de fevereiro de 2018, o 32º Rodeio Crioulo Internacional de Vacaria, sob a coordenação do patrão do CTG Porteira do Rio Grande, Luiz Carlos Bossle da Costa.

“Já fui patrão no ano de 1994 até 1996 e nesse segundo mandato estamos nos esforçando para fazer uma festa ainda mais bonita. A estimativa é que receberemos em torno de trezentas mil pessoas, as quais movimentarão a cidade toda e celebrarão conosco o tradicionalismo do nosso estado”, comenta o patrão.

O taura do laço

Firmino Batalha participou de todas as edições do Rodeio Crioulo Internacional de Vacaria e carrega consigo mais de sessenta anos de experiência como laçador

Na estante, não cabem mais troféus. O número exato de conquistas e prêmios ganhos no lombo do cavalo é impossível contabilizar, já que alguns se perderam e outros foram doados. Seu Firmino é conhecido por toda a região, e até mesmo em estados distantes do nosso, pelo seu excelente desempenho em provas de laço e por sua dedicação para manter a cultura do Rio Grande sempre viva.

Participando desde o primeiro Rodeio de Vacaria, esse laçador canhoto ainda lembra com clareza de como tudo funcionava naquela época. “O trabalho era pesado, o parque era um descampado, todo aberto, não tínhamos nem o brete para soltar os animais, os competidores se ajudavam entre si e no final dava tudo certo”, comenta seu Firmino.

Sua parceira de vida e andanças pelos rodeios, dona Honorina, recorda-se que seu marido só colocou calças e camisa social no dia de seu casamento. “Conheci o Firmino de bombacha e até hoje quase nunca o vi usando outra coisa. Ele é um verdadeiro apaixonado pela cultura gaúcha e sentimos muito orgulho das conquistas dele”, diz a esposa.

O laçador passou sua paixão e aptidão para seus filhos e netos. Firmininho, Evaldo e Tita também laçam, ganharam troféus e tem seu pai com uma verdadeira inspiração. “O pai é daqueles laçadores que nunca gostou de treinar antes de competir. Ele simplesmente é bom no que faz, então monta no cavalo e, consequentemente, traz um troféu pra casa”, declara Firmininho. Seus netos Pedro, João Vitor, Daniel e Bruno são a terceira geração que promete elevar ainda mais a qualidade do tiro de laço.

No auge de seus oitenta e três anos, seu Firmino estará laçando em mais um Rodeio Internacional de Vacaria e, claro, promete ganhar e continuar mantendo sua fama de um dos melhores laçadores do Rio Grande so Sul. “Enquanto puder, estarei em cima do lombo do cavalo”, completa.

    Família tradicionalista

Conheça a história de Deusi Rodrigues e seus três filhos, os quais carregam no peito o amor e o respeito pela cultura rio-grandense

O envolvimento da matriarca Deusi no mundo dos CTGs iniciou há mais de vinte anos atrás, quando participou da invernada do Sentinela da Querência, descobrindo seu forte na declamação. Seu amor pela tradição nasceu da influência que seu pai, Lauro da Silva, integrante do conjunto Os Minuanos, exerceu sobre ela, já que era um instrumentista de mão cheia e sempre se declarou um admirador da história do nosso Rio Grande.

Hoje, mãe de quatro filhos, Michele com vinte e dois anos, Ítalo com quinze, Diogo com nove e Eduardo com cinco, Deusi se orgulha em dizer que os meninos compartilham da mesma paixão que a sua. “Me sinto abençoada por poder ver meus filhos indo juntos para os ensaios, praticando em casa e encarando as competições de maneira saudável, sempre preocupados em apenas mostrar o seu melhor, independente do resultado”, declara a mãe. A filha mais velha e seu marido Marcos fazem a sua parte ajudando os pequenos em seus compromissos. “A Michele e o Marcos não se inseriram no tradicionalismo, mas participam indiretamente de todas as nossas competições, nos mandam poesias para estudarmos e declamarmos e nos acompanham sempre que podem”, explica a mãe.

Ítalo declama e é um premiado violeiro, sendo amadrinhador de seus irmãos declamadores. Diogo já contabiliza mais de dez troféus, é campeão do Festival Nacional de Cultura Gaúcha e finalista do Rodeio de Vacaria e Eduardo, que fez sua estreia no palco no rodeio de Carazinho em dezembro de 2017, emocionou a todos com sua pouca idade, mas muita expressão. “O Eduardo ainda não é alfabetizado, mas já consegue decorar suas poesias com a nossa ajuda aqui em casa. Cada um tem seu método, seja colando cartazes pela casa, ou inventando músicas com as estrofes, a gente sempre se ajuda para irmos confiantes para a competição”, explica Ítalo.

Participando do Grupo de Cultura Nativa Vacaria dos Pinhais, essa família se prepara para o Rodeio Crioulo Internacional, tão esperado por todos os envolvidos no meio. As pilchas já estão sendo feitas, as poesias na ponta da língua, as músicas tiradas no violão e, claro, o coração saindo pela boca. “A apresentação no rodeio grande ou nos demais rodeios é sempre um momento especial. É como se o tempo parasse e pudéssemos mostrar nosso lado artístico aflorado. O envolvimento com a cultura gaúcha nos presenteia com o espírito coletivo e mostra um novo caminho para nossos filhos que nasceram em uma época em que a tecnologia tira o foco da família e das amizades”, comenta Deusi.

Com anseios para o futuro e tradicionalismo na veia, essa família ainda pretende levar muitas premiações para casa e contagiar o maior número de pessoas para que voltem seus olhares e dêem valor para a riqueza de cultura que o nosso estado apresenta.

 

 

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